
Por Prof. David Ben Schwantes
“O relativismo é um dos muitos crimes dos intelectuais” (Karl Popper, in: Em Busca de um Mundo Melhor), 2006.
Não me lembro exatamente quando meu pensamento adquiriu o formato e a frequência complexos que agora tem, mas eu me lembro de como as coisas eram – ou pareciam ser – mais simples antes, quando as relações de causa e consequência não eram tão claras e quando minhas interações com o mundo a minha volta eram primárias e bem menos intencionais que agora.
Naquele tempo eu não compreendia, por exemplo, a relação existente entre somar-me a audiência de um programa de tevê que fomenta a intolerância ou que, ao revés, estimula uma tolerância indiscriminada e perigosa aos interesses da civilidade e do cristianismo como filosofia de vida válida, e ser corresponsável pelos resultados produzidos por tal programa no seio da sociedade a minha volta. Sinceramente, não sei nem como essa percepção se aguçou em mim, mas o fato é que hoje eu simplesmente não vejo programas que, após devidamente analisados sob meu senso crítico e minhas premissas capitais, se tenham provado incoerentes com o mundo ideal para cuja formação eu desejo contribuir – Semelhantemente, não ouço de gana própria e não sanciono a audição de composições musicais que sejam despropositadas ou mesmo com propósitos que considero inferiores. Essas práticas simples que norteiam minhas preferências e preterências cotidianas faz parte de uma postura ética que eu chamo de responsabilidade intelectual cristã.
A responsabilidade intelectual cristã é o fruto do encontro do conhecimento teórico do cristianismo com a volição[1] do ser, é o que fazemos a partir daquilo que aprendemos e recebemos como verdade cristã. Ser um cristão intelectualmente responsável significa agir em coerência com as crenças cristãs, mas também promover essas crenças através de nossas declarações e de nosso comportamento usuais, como também desacreditar ou neutralizar logicamente as crenças que se lhes oponham – sempre no espírito de amor que é marca radical do cristianismo.
A responsabilidade intelectual cristã implica, portanto, numa atividade de vigilância constante de recepção e rejeição lógicas que se orientam pelos valores instituídos nos modelos pregados e vividos por Jesus Cristo. É uma prática que ultrapassa a superficialidade dos atos e centra-se nos motivos íntimos que dirigem a alma, ocupando-se da essência volitiva do indivíduo e de sua relação com o mundo a sua volta. Destarte, a responsabilidade intelectual cristã é uma apreciação contínua das relações de causa e consequência entre os valores, as ideias e os atos ordinários, sendo os dois primeiros grupos a central do ser e o último a expressão desse ser em interação com o meio em que vive.
O cristão intelectualmente responsável é sujeito de suas interações e continuamente tem de pesar seus atos na balança de seus valores íntimos, avaliando entre outras coisas os ganhos e perdas decorrentes de suas escolhas nas chamadas áreas cinzentas[2] da ética cristã. Além disso, o cristão intelectualmente responsável reconhece ainda a complexidade de suas interações com o meio, que implicam em escolhas que progridem na seguinte escala: opção pior x opção ruim / opção ruim 1 x opção ruim 2 / opção ruim x opção boa / opção boa 1 x opção boa 2 / opção boa x opção melhor.
Um diferencial de peso a ser considerado nas escolhas do cristão intelectualmente responsável é, sem dúvida, o fato de que sua volição visa um propósito que está fora e acima dele mesmo. Ora, o cristão em qualquer nível cognitivo será motivado não por causa própria, senão pela causa suprema de Deus, a quem ele reconhece como seu Senhor e, portanto, detentor de direitos inalienáveis sobre sua pessoa e sobre seu próximo. Assim, as operações e cálculos que um cristão faz à hora de tomar uma decisão tendem a ser altruístas, colaborativas e em última instância sacrificais, conferindo-lhe esta última um status de nobreza de impossível alcance para aquele cuja volição tenha motivação egoísta.
Assim sendo, a luta do cristão intelectualmente responsável se traduz no esforço constante para confirmar sua orientação pela aquisição e coleção de conceitos e práticas afirmativas pró-cristianismo, bem como pela rejeição e desmantelo de conceitos e práticas que comprometam seu desenvolvimento e progresso rumo ao ideal de Deus. Ou seja, o cristianismo real precisa ser inteligente, reflexivo e crítico, tendo como base a adesão consciente do ser e interferindo no nível mais ordinário das gestões cotidianas do indivíduo, em suma, como diz Ellen G. White: “...a religião não é meramente uma influência entre outras; deve ser uma influência que domine todas as demais[3]” e “Exige reflexão e cuidado o fazer um bom pão; há, porém, mais religião num pão bem feito do que muitos pensam[4]”.
É fato que as massas cristãs sempre contarão com níveis variados de percepção da verdade, traduzidos nas experiências diversificadas de um e de outro indivíduo, respeitando o princípio bíblico de que “há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1 Corínthios 12:04). Assim sendo, é lógico supor que sobre alguns mais do que sobre outros repousará a responsabilidade intelectual que norteará a conduta cristã na selva de ideias de cada época, de cada momento histórico, abrindo caminho por filosofias, políticas e valores temporais, adaptando linguagens e abordagens, e combatendo o bom combate na afirmação da fé cristã e na soberania absoluta da Verdade em Cristo Jesus.
Diante dos desafios novos que os pareceres de cada geração e de cada cultura trouxerem, cabe ao intelectual cristão responsável depreender das declarações e modelos deixados nas Escrituras Sagradas, os padrões éticos que ditarão a postura adequada aos cristãos de um tempo e de um lugar específicos. Tais padrões éticos, obviamente, serão o substrato de reflexões autorizadas sobre as leis, as práticas e os exemplos dos patriarcas, profetas, reis e apóstolos, bem como de seus congêneres explícitos ou implícitos na vida e obra de Jesus Cristo.
Por tais considerações, não se pode ser cristão em via displicente ou casual, porque o cristianismo se erige sobre a ação conscienciosa e lúcida, traduzida em todas as instâncias da vida cotidiana: no pensar, no agir, no reagir, no comer, no beber, no nutrir-se, no vestir, no associar-se, no divertir-se, no escolher, enfim do ser. A primeira grande mudança da vida cristã acontece, portanto, na central da identidade que é tesouro das ideias e esta evolui até os atos evidentes da pessoa, que ora serão coerentes com nossa realidade íntima, ora afetados pelo meio em que vivemos, sendo a grande luta do cristão a adequação dos atos ordinários do ser aos ideais desposados pelo espírito.
Ser um cristão intelectualmente responsável, portanto, não remete pessoa alguma a uma condição acabada e estática, muito menos a um privilégio ostensivo que seja motivo de vaidade ou de orgulho individual, mas antes remete a pessoa à ideia de um exercício que é parte de um processo anímico contínuo, complexo e que requer o melhor uso dos recursos da inteligência, da coragem e da fé, naturalmente dosadas de acordo com cada situação.
Em analogia com situações de status belli[5] pode-se melhor compreender o papel do cristão intelectualmente responsável no plano secular em que, inevitavelmente, todos estamos inseridos e no qual as interações com suas cargas de influências bilaterais são um fato igualmente inevitável. Comparativamente o cristão intelectualmente responsável ocupa principal e duplamente as posições de vigia e de articulador de um exército beligerante, sendo suas funções: primeiro atentar para as moções opositoras, identificando as que são nocivas aos interesses que ele resguarda e depois combater tais moções tanto pela ação afirmativa, quanto pela resistência reativa e pacífica. Destarte, repousa sobre o cristão intelectualmente responsável entre outros, o dever de eleger as armas apropriadas para cada confronto, a intensidade de seu uso e o alvo primário de seus esforços coordenados, estando-lhe vetado, por exemplo, o uso de recursos que a filosofia cristã, por sua natureza ética, não possa aprovar, como a mentira, a fraude e a violência.
Reconhecer-se um cristão intelectualmente responsável, portanto, é o primeiro passo para a percepção de um senso de missão com implicações que vão desde a adesão individual até a colaboração com outros cristãos empenhados na batalha contra os “principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais” de que Paulo nos fala[6]. Nesse sentido, a responsabilidade intelectual cristã só encontra sentido dentro de um plano de interação que se traduza tanto na cooperação fraterna com os filhos da fé, quanto na oposição firme às ameaças externas que se assomem.
A partir destas considerações as seguintes perguntas soam muito relevantes: 1. Que papel real têm desempenhado os intelectuais cristãos do século XXI? 2. Quem são seus opositores de destaque neste momento? 3. Quais são suas prioridades? 4. Que medidas colaborativas se têm organizado para que a força da intelectualidade cristã se consolide, alcançando um fim útil de fato à causa cristã? 5. Com que entraves tais intelectuais cristãos têm se deparado? 6. Como tais entraves podem ser eficazmente contornados em planos de colaboração? 7. Como a percepção de seu papel afetará o intelectual cristão no dia do juízo em face de passagens como Gênesis 04:09[7] e Ezequiel 33:01-09[8]?
Se você conseguiu terminar a leitura deste artigo e conseguiu realmente compreender o cerne da questão, as perguntas acima são para você, porque muito provavelmente você é (ou está se tornando) um/a intelectual cristã/o, o que implica estar obrigado/a com os deveres e funções mencionados ao longo deste texto. Oro para que você compreenda que Deus o/a muniu de um talento particular que não é livremente concedido à massa cristã, senão a alguns que têm sido chamados a uma elevada missão, uma missão que visa à salvação de almas e ao resguardo e à promoção eficazes da causa de Deus. Você é importante em seja qual for o campo em que você foi plantado/a: ação humanitária, administração, arte, direito, esporte, filosofia, literatura, magistério, medicina, música, nutrição, pesquisa, política, etc. Sua voz precisa ser ativa e seu testemunho precisa ser ouvido, de modo que o Senhor agora mesmo lhe diz: "Não temas, porque Eu Sou contigo; não te assombres, porque Eu Sou teu Deus; eu te fortaleço,, e te sustento com a destra de minha justiça" (Isaías 41:10). Que Deus o/a abençoe!
[1] Volição (do latim volitione) é o processo cognitivo pelo qual um indivíduo se decide a praticar uma ação em particular.
[2] As áreas cinzentas são as questões - sobretudo modernas – sobre as quais as Escrituras Sagradas não legislam claramente e em que as posturas tomadas são passíveis de discussão.
[3] Ellen G. White, in: Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, 48.
[4] Ellen G. White, in: A Ciência do Bom Viver, p.126.
[5] Status Belli = Estado de Guerra
[6] Efésios 06:12
