domingo, 29 de janeiro de 2012

Da Responsabilidade Intelectual Cristã


Por Prof. David Ben Schwantes


“O relativismo é um dos muitos crimes dos intelectuais” (Karl Popper, in: Em Busca de um Mundo Melhor), 2006.


Não me lembro exatamente quando meu pensamento adquiriu o formato e a frequência complexos que agora tem, mas eu me lembro de como as coisas eram – ou pareciam ser – mais simples antes, quando as relações de causa e consequência não eram tão claras e quando minhas interações com o mundo a minha volta eram primárias e bem menos intencionais que agora.

Naquele tempo eu não compreendia, por exemplo, a relação existente entre somar-me a audiência de um programa de tevê que fomenta a intolerância ou que, ao revés, estimula uma tolerância indiscriminada e perigosa aos interesses da civilidade e do cristianismo como filosofia de vida válida, e ser corresponsável pelos resultados produzidos por tal programa no seio da sociedade a minha volta. Sinceramente, não sei nem como essa percepção se aguçou em mim, mas o fato é que hoje eu simplesmente não vejo programas que, após devidamente analisados sob meu senso crítico e minhas premissas capitais, se tenham provado incoerentes com o mundo ideal para cuja formação eu desejo contribuir – Semelhantemente, não ouço de gana própria e não sanciono a audição de composições musicais que sejam despropositadas ou mesmo com propósitos que considero inferiores. Essas práticas simples que norteiam minhas preferências e preterências cotidianas faz parte de uma postura ética que eu chamo de responsabilidade intelectual cristã.

A responsabilidade intelectual cristã é o fruto do encontro do conhecimento teórico do cristianismo com a volição[1] do ser, é o que fazemos a partir daquilo que aprendemos e recebemos como verdade cristã. Ser um cristão intelectualmente responsável significa agir em coerência com as crenças cristãs, mas também promover essas crenças através de nossas declarações e de nosso comportamento usuais, como também desacreditar ou neutralizar logicamente as crenças que se lhes oponham – sempre no espírito de amor que é marca radical do cristianismo.

A responsabilidade intelectual cristã implica, portanto, numa atividade de vigilância constante de recepção e rejeição lógicas que se orientam pelos valores instituídos nos modelos pregados e vividos por Jesus Cristo. É uma prática que ultrapassa a superficialidade dos atos e centra-se nos motivos íntimos que dirigem a alma, ocupando-se da essência volitiva do indivíduo e de sua relação com o mundo a sua volta. Destarte, a responsabilidade intelectual cristã é uma apreciação contínua das relações de causa e consequência entre os valores, as ideias e os atos ordinários, sendo os dois primeiros grupos a central do ser e o último a expressão desse ser em interação com o meio em que vive.

O cristão intelectualmente responsável é sujeito de suas interações e continuamente tem de pesar seus atos na balança de seus valores íntimos, avaliando entre outras coisas os ganhos e perdas decorrentes de suas escolhas nas chamadas áreas cinzentas[2] da ética cristã. Além disso, o cristão intelectualmente responsável reconhece ainda a complexidade de suas interações com o meio, que implicam em escolhas que progridem na seguinte escala: opção pior x opção ruim / opção ruim 1 x opção ruim 2 / opção ruim x opção boa / opção boa 1 x opção boa 2 / opção boa x opção melhor.

Um diferencial de peso a ser considerado nas escolhas do cristão intelectualmente responsável é, sem dúvida, o fato de que sua volição visa um propósito que está fora e acima dele mesmo. Ora, o cristão em qualquer nível cognitivo será motivado não por causa própria, senão pela causa suprema de Deus, a quem ele reconhece como seu Senhor e, portanto, detentor de direitos inalienáveis sobre sua pessoa e sobre seu próximo. Assim, as operações e cálculos que um cristão faz à hora de tomar uma decisão tendem a ser altruístas, colaborativas e em última instância sacrificais, conferindo-lhe esta última um status de nobreza de impossível alcance para aquele cuja volição tenha motivação egoísta.

Assim sendo, a luta do cristão intelectualmente responsável se traduz no esforço constante para confirmar sua orientação pela aquisição e coleção de conceitos e práticas afirmativas pró-cristianismo, bem como pela rejeição e desmantelo de conceitos e práticas que comprometam seu desenvolvimento e progresso rumo ao ideal de Deus. Ou seja, o cristianismo real precisa ser inteligente, reflexivo e crítico, tendo como base a adesão consciente do ser e interferindo no nível mais ordinário das gestões cotidianas do indivíduo, em suma, como diz Ellen G. White: “...a religião não é meramente uma influência entre outras; deve ser uma influência que domine todas as demais[3] e “Exige reflexão e cuidado o fazer um bom pão; há, porém, mais religião num pão bem feito do que muitos pensam[4]”.

É fato que as massas cristãs sempre contarão com níveis variados de percepção da verdade, traduzidos nas experiências diversificadas de um e de outro indivíduo, respeitando o princípio bíblico de que “há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1 Corínthios 12:04). Assim sendo, é lógico supor que sobre alguns mais do que sobre outros repousará a responsabilidade intelectual que norteará a conduta cristã na selva de ideias de cada época, de cada momento histórico, abrindo caminho por filosofias, políticas e valores temporais, adaptando linguagens e abordagens, e combatendo o bom combate na afirmação da fé cristã e na soberania absoluta da Verdade em Cristo Jesus.

Diante dos desafios novos que os pareceres de cada geração e de cada cultura trouxerem, cabe ao intelectual cristão responsável depreender das declarações e modelos deixados nas Escrituras Sagradas, os padrões éticos que ditarão a postura adequada aos cristãos de um tempo e de um lugar específicos. Tais padrões éticos, obviamente, serão o substrato de reflexões autorizadas sobre as leis, as práticas e os exemplos dos patriarcas, profetas, reis e apóstolos, bem como de seus congêneres explícitos ou implícitos na vida e obra de Jesus Cristo.

Por tais considerações, não se pode ser cristão em via displicente ou casual, porque o cristianismo se erige sobre a ação conscienciosa e lúcida, traduzida em todas as instâncias da vida cotidiana: no pensar, no agir, no reagir, no comer, no beber, no nutrir-se, no vestir, no associar-se, no divertir-se, no escolher, enfim do ser. A primeira grande mudança da vida cristã acontece, portanto, na central da identidade que é tesouro das ideias e esta evolui até os atos evidentes da pessoa, que ora serão coerentes com nossa realidade íntima, ora afetados pelo meio em que vivemos, sendo a grande luta do cristão a adequação dos atos ordinários do ser aos ideais desposados pelo espírito.

Ser um cristão intelectualmente responsável, portanto, não remete pessoa alguma a uma condição acabada e estática, muito menos a um privilégio ostensivo que seja motivo de vaidade ou de orgulho individual, mas antes remete a pessoa à ideia de um exercício que é parte de um processo anímico contínuo, complexo e que requer o melhor uso dos recursos da inteligência, da coragem e da fé, naturalmente dosadas de acordo com cada situação.

Em analogia com situações de status belli[5] pode-se melhor compreender o papel do cristão intelectualmente responsável no plano secular em que, inevitavelmente, todos estamos inseridos e no qual as interações com suas cargas de influências bilaterais são um fato igualmente inevitável. Comparativamente o cristão intelectualmente responsável ocupa principal e duplamente as posições de vigia e de articulador de um exército beligerante, sendo suas funções: primeiro atentar para as moções opositoras, identificando as que são nocivas aos interesses que ele resguarda e depois combater tais moções tanto pela ação afirmativa, quanto pela resistência reativa e pacífica. Destarte, repousa sobre o cristão intelectualmente responsável entre outros, o dever de eleger as armas apropriadas para cada confronto, a intensidade de seu uso e o alvo primário de seus esforços coordenados, estando-lhe vetado, por exemplo, o uso de recursos que a filosofia cristã, por sua natureza ética, não possa aprovar, como a mentira, a fraude e a violência.

Reconhecer-se um cristão intelectualmente responsável, portanto, é o primeiro passo para a percepção de um senso de missão com implicações que vão desde a adesão individual até a colaboração com outros cristãos empenhados na batalha contra os “principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais” de que Paulo nos fala[6]. Nesse sentido, a responsabilidade intelectual cristã só encontra sentido dentro de um plano de interação que se traduza tanto na cooperação fraterna com os filhos da fé, quanto na oposição firme às ameaças externas que se assomem.

A partir destas considerações as seguintes perguntas soam muito relevantes: 1. Que papel real têm desempenhado os intelectuais cristãos do século XXI? 2. Quem são seus opositores de destaque neste momento? 3. Quais são suas prioridades? 4. Que medidas colaborativas se têm organizado para que a força da intelectualidade cristã se consolide, alcançando um fim útil de fato à causa cristã? 5. Com que entraves tais intelectuais cristãos têm se deparado? 6. Como tais entraves podem ser eficazmente contornados em planos de colaboração? 7. Como a percepção de seu papel afetará o intelectual cristão no dia do juízo em face de passagens como Gênesis 04:09[7] e Ezequiel 33:01-09[8]?

Se você conseguiu terminar a leitura deste artigo e conseguiu realmente compreender o cerne da questão, as perguntas acima são para você, porque muito provavelmente você é (ou está se tornando) um/a intelectual cristã/o, o que implica estar obrigado/a com os deveres e funções mencionados ao longo deste texto. Oro para que você compreenda que Deus o/a muniu de um talento particular que não é livremente concedido à massa cristã, senão a alguns que têm sido chamados a uma elevada missão, uma missão que visa à salvação de almas e ao resguardo e à promoção eficazes da causa de Deus. Você é importante em seja qual for o campo em que você foi plantado/a: ação humanitária, administração, arte, direito, esporte, filosofia, literatura, magistério, medicina, música, nutrição, pesquisa, política, etc. Sua voz precisa ser ativa e seu testemunho precisa ser ouvido, de modo que o Senhor agora mesmo lhe diz: "Não temas, porque Eu Sou contigo; não te assombres, porque Eu Sou teu Deus; eu te fortaleço,, e te sustento com a destra de minha justiça" (Isaías 41:10). Que Deus o/a abençoe!



[1] Volição (do latim volitione) é o processo cognitivo pelo qual um indivíduo se decide a praticar uma ação em particular.

[2] As áreas cinzentas são as questões - sobretudo modernas – sobre as quais as Escrituras Sagradas não legislam claramente e em que as posturas tomadas são passíveis de discussão.

[3] Ellen G. White, in: Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, 48.

[4] Ellen G. White, in: A Ciência do Bom Viver, p.126.

[5] Status Belli = Estado de Guerra

[6] Efésios 06:12

segunda-feira, 21 de março de 2011

Úlitmo encontro da Classe Bíblica de 2010.



"A saudade é um privilégio das almas sensíveis..."
(David Ben Schwantes)


Em pé da direita para a esquerda:
Cláudio, Gustavo, Ancelmo Jr., Luís Felipe, e eu.

Agachados:
Rhaysa, Mariana, Laurinha e Marquinhos.

domingo, 20 de março de 2011

A Verdade?

Por David Ben Schwantes.


Estou cansado desse incômoda obsessão pela verdade

De todo mundo fingir que se importa

E que quer viver num mundo justo e reto...

Essa encenação obscena me cansa, me exaure,

Porque a verdade é que a verdade não é uma jóia que se queira comprar

E menos ainda que se queira possuir,

Não quando a imperfeição é a constante em nossas vidas,

Em nossas almas, em nossos membros mutilados

Pelas escolhas imperdoavelmente humanas que fizemos.

A verdade não é aquilo pelo que queiramos dar a vida,

Isso não é trágico e fingir que é chega a ser patético...

A verdade é bela e terrível, já disse a Poetisa das Trevas,

Num momento raro em que a verdade foi amada

E respeitada pelo que é e como é.

Estou cansado de ouvir esses clamores vazios pela verdade,

Todos tão veementes e tão insinceros,

Pois quem quer a Verdade a encontrará,

Se a buscar de todo o coração.

A verdade não é algo que se possa dar,

A verdade não é nada que possa ser descrito,

A verdade falsamente anelada por tantos é um mito,

Como Shangri-lá, El Dorado, Che Guevara...

A verdade tem tentáculos opressivos,

Minuciosos demais para nossa triste humanidade,

Para nós que, no fundo, queremos tão menos que a verdade;

Nós que não queremos chorar por grandes causas,

Nem receber flores honradas em túmulos célebres;

Nós que queremos viver vidas longas,

Dormindo em camas confortáveis e comendo o bom pão.

A verdade é um vago desejo na experiência humana,

Sobre o qual se escreve mentirosamente,

O qual se deseja por força de cultura,

Mas do qual a alma se esquiva por força da própria natureza.

Alguém perguntará antes de uma decisão histórica:

‘O que é a Verdade?’ – E em seguida fugirá da resposta,

Por ser fiel ao próprio instinto, à vontade decadente,

Que é naturalmente imiga da verdade.

Só há, portanto, uma verdade a buscar...

Uma única verdade a se aceitar a revelia do que queiramos:

Do coração traído por um beijo falso, do abandono na hora da dor,

A verdade do sangue vertido e da humilhante coroação,

Da missão de altíssimo custo que Alguém aceitou

Do amor que na entrega total e irreservada se consumou,

Mas esta verdade... Oh, miséria! Poucos hão-na de querer.


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domingo, 2 de novembro de 2008


O Cristão e a Política: Considerações de um sobrevivente...



Tenho pensado muito ultimamente sobre os acontecimentos das últimas eleições para prefeito. Em minhas considerações pessoais tenho tentado extrair lições válidas e rever possíveis pontos de falha em meu procedimento ou no procedimento de pessoas relevantes em minha vida – É sempre bom repensar nossos feitos quando temos em vista coisas superiores as que esta vida pode oferecer – E é claro que o conhecimento de Deus e de Seu caráter podem fazer toda a diferença nas conclusões a que podemos chegar com esse tipo de reflexão.
As eleições passaram e com elas os dias mais quentes de uma guerra de intrigas, interesses e idéias que fizeram cair máscaras e enlouqueceram muita gente que em outras circunstâncias pode até ser considerada gente de bem. Havia os políticos e os eleitores, e entre estes últimos estavam os interesseiros (a maioria esmagadora), os idealistas (uma contada minoria), os que sabiam o que estava acontecendo, os que não tinham idéia do que estava acontecendo, e espalhados em todos esses grupos estavam os cristãos.
Mas quem são os cristãos? Numa semântica[i] radical os cristãos são aqueles que seguem a pessoa e o ensino de Jesus Cristo. Eles são gente comum que escolheu conduzir a vida dentro de uma filosofia de integridade[ii] e pacifismo[iii] coerentes com aquilo que Jesus pregava e vivia. São homens e mulheres, católicos ou protestantes, brancos ou negros, ricos e pobres, cultos e indoutos, conservadores ou liberais, mas todos orientados pelo propósito de glorificar a Deus através de suas vidas e de lutar pela vitória do bem contra o mal.
Contudo, para fins de observação, os cristãos podem ser divididos basicamente em duas classes: os autênticos e os meramente nominais.
Os cristãos autênticos são sinceros, são aqueles que realmente acreditam no sistema de vida ensinado na Bíblia Sagrada e fazem suas escolhas levando em consideração os elevados padrões éticos propostos por um Deus, a quem chamam de ‘Senhor’. Não são perfeitos, na verdade eles cometem tantos erros e tão graves quanto qualquer um dos patriarcas, profetas e apóstolos que a Bíblia descreve, mas o mais importante a respeito deles é que eles amam a verdade e a buscam acima de todos os interesses terrenos e de todas as conveniências pessoais. Eles se esforçam para não serem injustos, para não defraudar a ninguém e neste mundo cheio de escolhas difíceis, eles podem ser bem chamados de ‘sal da terra’ e de ‘luz do mundo’ (Mateus 05:13-16).
Em contraposição aos cristãos autênticos estão os cristãos meramente nominais. Eles são aqueles que reconhecem as vantagens e a confiabilidade do caráter cristão, chegam a admirar as pessoas de caráter e em alguns casos até mesmo desejam ser como elas em seu íntimo. Contudo, falta-lhes a força moral da convicção para agir em conformidade com aquilo que reconhecem ser correto. Eles não confiam em Deus o bastante para fazer o certo porque é certo e deixar com Ele as conseqüências. Não! Eles preferem ter o controle da situação e eles mesmos dirigirem suas vidas ao sabor de suas crenças e interesses pessoais, e se tiverem de pisar em um punhado de princípios bíblicos para conseguirem o que querem, tudo bem, desde que “ninguém fique sabendo”. Os cristãos meramente nominais são perigosos socialmente pelo nível de hipocrisia a que podem chegar, pois travam o progresso do Evangelho, quando ao mesmo tempo que despertam a desconfiança dos não-religiosos, também procuram deslustrar o caráter daqueles que eles sentem que são melhores do que eles mesmo jamais serão.
Os cristãos meramente nominais põem a risco a credibilidade das religiões e a sustentabilidade das propostas das Igrejas quando ostentam em seus atos a mesquinhez de cães famintos na defesa de vantagens pessoais. Talvez eles nem mesmo compreendam a confusão que causam quando defendem mentiras sociais, contra professos não-religiosos que lutam por causas nobres não necessariamente atreladas a ambições materiais, mas sobre isso cada um dará contas de si mesmo a Deus.
Muitas crenças não autorizadas sobre o envolvimento do cristão com a política ecoam tradicionalmente nos meios cristãos. Alguns, na defesa equivocada de uma reputação cristã sólida, dizem que “o cristão não pode se entremeter com os assuntos desta vida”, entre os quais a política certamente figura também. Outros simplificam: “A política é um meio sujo e não serve para o cristão” – Mas será mesmo assim? Se o cristão consciencioso não se permite o envolvimento com a política, o que diremos então de Melquisedeque, de José, de David, de Salomão, de Daniel e de todos aqueles exemplos nobres que enchem as páginas sagradas e que estiveram “constrangedoramente” envolvidos com a política de seu tempo? Além disso, se os cristãos não se permitirem interferir de algum modo nos governos e nas decisões políticas que afetarão a vida de tantos, não haverá uma possibilidade muito maior de que o mal dê as cartas na formulação de leis abusivas e na corrupção de direitos universais como a vida, a liberdade e a busca da felicidade? Se no passado Deus chamou homens para atuarem sim em panoramas indiscutivelmente políticos, Ele teria mudado tão radicalmente em nossa época? Alguns dirão que sim, mas eu discordarei, porque “Deus não muda” (Malaquias 03:06; Tiago 01:17).
O que o cristão não deve fazer é entregar-se à política sob a orientação da paixão[iv]; O que o cristão não deve fazer é lançar mão da desonestidade e da hipocrisia na defesa de interesses pessoais; O cristão verdadeiro jamais clamará a Deus em favor de um candidato sem conhecer de perto seu oponente; Ele não abrirá sua casa a compra de títulos, não subornará e nem se deixará subornar, não mentirá contra ninguém e nem tentará fazer alguém parecer melhor do que realmente é a fim de favorecê-lo; Ele não desculpará a falta de caráter de seus preferidos com a infâmia de que todos os políticos pertencem a mesma casta de mentirosos e farsantes, e não se omitirá na defesa da Verdade, da Justiça e da Honra quando a isso chamado.
Engana-se aquele que diz que o silêncio é eloqüência[v], quando está em seu poder gritar em favor da verdade, pois assim fazia João Batista sem hesitar (embora isso tenha lhe custado a cabeça). Defender conveniências pessoais com a omissão não encontra respaldo nas Escrituras, nem mesmo quando elas são mais habilmente distorcidas.
Um dia eu disse a meus alunos que “quando meus amigos defendessem uma mentira, eles estariam jogando num campo diferente do meu e quando meus inimigos se escudassem com a verdade, eu não poderia atacá-los”, e eu não estava brincando, nem procurando ser eloqüente. As coisas realmente são assim. Diferente da maioria das pessoas, eu não advogo essa idéia absurda de lealdade incondicional a ninguém que se oponha àquilo que enxergo como sendo a coisa certa. Eu digo a verdade a meus amigos e argumento com eles sim, mas não apoiaria sua decisão numa senda[vi] equivocada – Se bem que o mais importante é que nem por isso eu os deixaria ou tentaria forçar sua consciência a coisa alguma.
Como cristão, sinto-me confuso em ver de repente papéis trocados no calor de causas políticas que na maioria das vezes não estão atreladas àquilo que se destinam de fato: o bem social e a promoção responsável da liberdade individual.
Hipocrisia social a parte, todos sabem das tensões existentes entre os católicos e os protestantes quando se evocam os assuntos relativos a religião. Eu, por exemplo, tenho uma orientação protestante e não simpatizo com os dogmas tradicionais católicos, assim como eu sei que os católicos praticantes não simpatizam tampouco com minhas crenças. (Paciência! Os princípios da tolerância e do amor, não da hipocrisia sejam árbitros entre nós todos). Contudo, eu não posso apoiar a protestantes que se comportam como se um processo eletivo, supostamente dirigido por Deus, precisasse de sua ajuda na prática dos atos mais infames e vergonhosos de corrupção. Tampouco posso me esquivar de aplaudir e reconhecer a coragem e o valor de um padre que volta sua atenção e regula seu serviço com vista ao bem estar dos menos favorecidos e daqueles que mais precisam de atenção e oportunidade.
É estranho para mim que as pessoas se deixem conduzir tanto por emoções de casta inferior e se preocupem tanto em manter associações afetivas ou favoritistas quando coisas tão maiores do que nós mesmos estão em jogo. De onde afinal vem essa falta de lucidez? Um de meus alunos do Ensino Médio parece ter sido mais sábio do que eu para responder a esta pergunta quando me disse: “Eles não sabem que são maus, professor, eles pensam que só estão defendendo o pedaço de pão deles!”
É estranho para mim que os homens se iludam que o bem é tudo aquilo que os deixa confortáveis e que os bons são aqueles que não se opõem a seus interesses imediatos, quando a Bíblia Sagrada advoga conceitos muito diferentes desses que agradam tanto aos que pensam pouco.
Há um Deus acima de nós e todos seremos julgados por Ele um dia. Nossos atos mais sinceros no entanto terão de ser avaliados a luz de nossos motivos mais íntimos e quem resistirá aos olhos de um Deus que “olha para o coração” (1 Samuel 16:07).
Pelo que observei, o mandamento mais espezinhado nas últimas eleições foi o nono (Êxodo 20:16), exatamente aquele que proíbe que levantemos um falso testemunho contra nosso próximo. Em tempos passados, eu mesmo o quebrei em condições semelhantes pela terrível prática de se julgar uma pessoa com base somente naquilo que ouvimos dela e sem um conhecimento pessoal que nos ampare. Tive tempo e humildade para corrigir meus erros nesse sentido (mesmo em face de todas as conseqüências), embora alguns ainda achem que foi o orgulho que me animou a dar passos tão drásticos em meu breve envolvimento com a política. Mas quantos não terão uma oportunidade de corrigir seus erros assim?
Sim, as eleições passaram e agora o momento é de exame de coração e de arrependimento para muitos – Não pela perseguição que se levanta contra os corajosos e discordantes em tempos de campanha, perseguição que pretende se legitimar pela força de um poder temporal, mas pelo que cada um fez na consciência ou na inconsciência do que é ser cristão em tempos tão difíceis.
Cada um sabe de si e dos motivos que o animaram, mas nem todos são honestos o bastante para recuar de um caminho de erro, mentira, corrupção e vergonha, e a estes o Senhor pergunta: “Por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu mando? (Lucas 06:46).
Quanto a mim, diante do misericordioso Deus, sobre meu posicionamento político evidente e minha participação consciente nas últimas eleições, estou em paz com minha consciência e com Seus reclamos sobre meu serviço. Mas os que me acusaram, perseguiram e condenaram por minha coragem poderão dizer algo semelhante? Poderão eles resistir a Verdade sobre essas coisas? Somente o tempo dirá e até que a resposta venha, convém-me imitar o Senhor, dizendo: “Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem” (Lucas 23:34).


[i] Semântica - Ramo científico da lingüística que se dedica ao estudo dos significados dos termos.
[ii] Integridade - Vem do latim integritate, significa a qualidade de alguém ou algo ser íntegro, de conduta reta, pessoa de honra, ética, educada, etc.
[iii] Pacifismo - Aspecto do ensino de Jesus que diz que os cristãos deveriam rejeitar a violência. Obedecendo aos princípios de amor ao próximo, de justiça (não fazer aos outros o que não queremos que nos façam) e de não-violência, muitos cristãos são pacifistas.
[iv] Paixão - Sentimento que impede de se raciocinar com a lógica.
[v] Eloqüência - Capacidade de falar e exprimir-se com facilidade; capacidade de persuadir através da palavra; arte do bem falar.
[vi] Senda - Caminho.