
O Cristão e a Política: Considerações de um sobrevivente...
Tenho pensado muito ultimamente sobre os acontecimentos das últimas eleições para prefeito. Em minhas considerações pessoais tenho tentado extrair lições válidas e rever possíveis pontos de falha em meu procedimento ou no procedimento de pessoas relevantes em minha vida – É sempre bom repensar nossos feitos quando temos em vista coisas superiores as que esta vida pode oferecer – E é claro que o conhecimento de Deus e de Seu caráter podem fazer toda a diferença nas conclusões a que podemos chegar com esse tipo de reflexão.
As eleições passaram e com elas os dias mais quentes de uma guerra de intrigas, interesses e idéias que fizeram cair máscaras e enlouqueceram muita gente que em outras circunstâncias pode até ser considerada gente de bem. Havia os políticos e os eleitores, e entre estes últimos estavam os interesseiros (a maioria esmagadora), os idealistas (uma contada minoria), os que sabiam o que estava acontecendo, os que não tinham idéia do que estava acontecendo, e espalhados em todos esses grupos estavam os cristãos.
Mas quem são os cristãos? Numa semântica[i] radical os cristãos são aqueles que seguem a pessoa e o ensino de Jesus Cristo. Eles são gente comum que escolheu conduzir a vida dentro de uma filosofia de integridade[ii] e pacifismo[iii] coerentes com aquilo que Jesus pregava e vivia. São homens e mulheres, católicos ou protestantes, brancos ou negros, ricos e pobres, cultos e indoutos, conservadores ou liberais, mas todos orientados pelo propósito de glorificar a Deus através de suas vidas e de lutar pela vitória do bem contra o mal.
Contudo, para fins de observação, os cristãos podem ser divididos basicamente em duas classes: os autênticos e os meramente nominais.
Os cristãos autênticos são sinceros, são aqueles que realmente acreditam no sistema de vida ensinado na Bíblia Sagrada e fazem suas escolhas levando em consideração os elevados padrões éticos propostos por um Deus, a quem chamam de ‘Senhor’. Não são perfeitos, na verdade eles cometem tantos erros e tão graves quanto qualquer um dos patriarcas, profetas e apóstolos que a Bíblia descreve, mas o mais importante a respeito deles é que eles amam a verdade e a buscam acima de todos os interesses terrenos e de todas as conveniências pessoais. Eles se esforçam para não serem injustos, para não defraudar a ninguém e neste mundo cheio de escolhas difíceis, eles podem ser bem chamados de ‘sal da terra’ e de ‘luz do mundo’ (Mateus 05:13-16).
Em contraposição aos cristãos autênticos estão os cristãos meramente nominais. Eles são aqueles que reconhecem as vantagens e a confiabilidade do caráter cristão, chegam a admirar as pessoas de caráter e em alguns casos até mesmo desejam ser como elas em seu íntimo. Contudo, falta-lhes a força moral da convicção para agir em conformidade com aquilo que reconhecem ser correto. Eles não confiam em Deus o bastante para fazer o certo porque é certo e deixar com Ele as conseqüências. Não! Eles preferem ter o controle da situação e eles mesmos dirigirem suas vidas ao sabor de suas crenças e interesses pessoais, e se tiverem de pisar em um punhado de princípios bíblicos para conseguirem o que querem, tudo bem, desde que “ninguém fique sabendo”. Os cristãos meramente nominais são perigosos socialmente pelo nível de hipocrisia a que podem chegar, pois travam o progresso do Evangelho, quando ao mesmo tempo que despertam a desconfiança dos não-religiosos, também procuram deslustrar o caráter daqueles que eles sentem que são melhores do que eles mesmo jamais serão.
Os cristãos meramente nominais põem a risco a credibilidade das religiões e a sustentabilidade das propostas das Igrejas quando ostentam em seus atos a mesquinhez de cães famintos na defesa de vantagens pessoais. Talvez eles nem mesmo compreendam a confusão que causam quando defendem mentiras sociais, contra professos não-religiosos que lutam por causas nobres não necessariamente atreladas a ambições materiais, mas sobre isso cada um dará contas de si mesmo a Deus.
Muitas crenças não autorizadas sobre o envolvimento do cristão com a política ecoam tradicionalmente nos meios cristãos. Alguns, na defesa equivocada de uma reputação cristã sólida, dizem que “o cristão não pode se entremeter com os assuntos desta vida”, entre os quais a política certamente figura também. Outros simplificam: “A política é um meio sujo e não serve para o cristão” – Mas será mesmo assim? Se o cristão consciencioso não se permite o envolvimento com a política, o que diremos então de Melquisedeque, de José, de David, de Salomão, de Daniel e de todos aqueles exemplos nobres que enchem as páginas sagradas e que estiveram “constrangedoramente” envolvidos com a política de seu tempo? Além disso, se os cristãos não se permitirem interferir de algum modo nos governos e nas decisões políticas que afetarão a vida de tantos, não haverá uma possibilidade muito maior de que o mal dê as cartas na formulação de leis abusivas e na corrupção de direitos universais como a vida, a liberdade e a busca da felicidade? Se no passado Deus chamou homens para atuarem sim em panoramas indiscutivelmente políticos, Ele teria mudado tão radicalmente em nossa época? Alguns dirão que sim, mas eu discordarei, porque “Deus não muda” (Malaquias 03:06; Tiago 01:17).
O que o cristão não deve fazer é entregar-se à política sob a orientação da paixão[iv]; O que o cristão não deve fazer é lançar mão da desonestidade e da hipocrisia na defesa de interesses pessoais; O cristão verdadeiro jamais clamará a Deus em favor de um candidato sem conhecer de perto seu oponente; Ele não abrirá sua casa a compra de títulos, não subornará e nem se deixará subornar, não mentirá contra ninguém e nem tentará fazer alguém parecer melhor do que realmente é a fim de favorecê-lo; Ele não desculpará a falta de caráter de seus preferidos com a infâmia de que todos os políticos pertencem a mesma casta de mentirosos e farsantes, e não se omitirá na defesa da Verdade, da Justiça e da Honra quando a isso chamado.
Engana-se aquele que diz que o silêncio é eloqüência[v], quando está em seu poder gritar em favor da verdade, pois assim fazia João Batista sem hesitar (embora isso tenha lhe custado a cabeça). Defender conveniências pessoais com a omissão não encontra respaldo nas Escrituras, nem mesmo quando elas são mais habilmente distorcidas.
Um dia eu disse a meus alunos que “quando meus amigos defendessem uma mentira, eles estariam jogando num campo diferente do meu e quando meus inimigos se escudassem com a verdade, eu não poderia atacá-los”, e eu não estava brincando, nem procurando ser eloqüente. As coisas realmente são assim. Diferente da maioria das pessoas, eu não advogo essa idéia absurda de lealdade incondicional a ninguém que se oponha àquilo que enxergo como sendo a coisa certa. Eu digo a verdade a meus amigos e argumento com eles sim, mas não apoiaria sua decisão numa senda[vi] equivocada – Se bem que o mais importante é que nem por isso eu os deixaria ou tentaria forçar sua consciência a coisa alguma.
Como cristão, sinto-me confuso em ver de repente papéis trocados no calor de causas políticas que na maioria das vezes não estão atreladas àquilo que se destinam de fato: o bem social e a promoção responsável da liberdade individual.
Hipocrisia social a parte, todos sabem das tensões existentes entre os católicos e os protestantes quando se evocam os assuntos relativos a religião. Eu, por exemplo, tenho uma orientação protestante e não simpatizo com os dogmas tradicionais católicos, assim como eu sei que os católicos praticantes não simpatizam tampouco com minhas crenças. (Paciência! Os princípios da tolerância e do amor, não da hipocrisia sejam árbitros entre nós todos). Contudo, eu não posso apoiar a protestantes que se comportam como se um processo eletivo, supostamente dirigido por Deus, precisasse de sua ajuda na prática dos atos mais infames e vergonhosos de corrupção. Tampouco posso me esquivar de aplaudir e reconhecer a coragem e o valor de um padre que volta sua atenção e regula seu serviço com vista ao bem estar dos menos favorecidos e daqueles que mais precisam de atenção e oportunidade.
É estranho para mim que as pessoas se deixem conduzir tanto por emoções de casta inferior e se preocupem tanto em manter associações afetivas ou favoritistas quando coisas tão maiores do que nós mesmos estão em jogo. De onde afinal vem essa falta de lucidez? Um de meus alunos do Ensino Médio parece ter sido mais sábio do que eu para responder a esta pergunta quando me disse: “Eles não sabem que são maus, professor, eles pensam que só estão defendendo o pedaço de pão deles!”
É estranho para mim que os homens se iludam que o bem é tudo aquilo que os deixa confortáveis e que os bons são aqueles que não se opõem a seus interesses imediatos, quando a Bíblia Sagrada advoga conceitos muito diferentes desses que agradam tanto aos que pensam pouco.
Há um Deus acima de nós e todos seremos julgados por Ele um dia. Nossos atos mais sinceros no entanto terão de ser avaliados a luz de nossos motivos mais íntimos e quem resistirá aos olhos de um Deus que “olha para o coração” (1 Samuel 16:07).
Pelo que observei, o mandamento mais espezinhado nas últimas eleições foi o nono (Êxodo 20:16), exatamente aquele que proíbe que levantemos um falso testemunho contra nosso próximo. Em tempos passados, eu mesmo o quebrei em condições semelhantes pela terrível prática de se julgar uma pessoa com base somente naquilo que ouvimos dela e sem um conhecimento pessoal que nos ampare. Tive tempo e humildade para corrigir meus erros nesse sentido (mesmo em face de todas as conseqüências), embora alguns ainda achem que foi o orgulho que me animou a dar passos tão drásticos em meu breve envolvimento com a política. Mas quantos não terão uma oportunidade de corrigir seus erros assim?
Sim, as eleições passaram e agora o momento é de exame de coração e de arrependimento para muitos – Não pela perseguição que se levanta contra os corajosos e discordantes em tempos de campanha, perseguição que pretende se legitimar pela força de um poder temporal, mas pelo que cada um fez na consciência ou na inconsciência do que é ser cristão em tempos tão difíceis.
Cada um sabe de si e dos motivos que o animaram, mas nem todos são honestos o bastante para recuar de um caminho de erro, mentira, corrupção e vergonha, e a estes o Senhor pergunta: “Por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu mando? (Lucas 06:46).
Quanto a mim, diante do misericordioso Deus, sobre meu posicionamento político evidente e minha participação consciente nas últimas eleições, estou em paz com minha consciência e com Seus reclamos sobre meu serviço. Mas os que me acusaram, perseguiram e condenaram por minha coragem poderão dizer algo semelhante? Poderão eles resistir a Verdade sobre essas coisas? Somente o tempo dirá e até que a resposta venha, convém-me imitar o Senhor, dizendo: “Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem” (Lucas 23:34).
[i] Semântica - Ramo científico da lingüística que se dedica ao estudo dos significados dos termos.
[ii] Integridade - Vem do latim integritate, significa a qualidade de alguém ou algo ser íntegro, de conduta reta, pessoa de honra, ética, educada, etc.
[iii] Pacifismo - Aspecto do ensino de Jesus que diz que os cristãos deveriam rejeitar a violência. Obedecendo aos princípios de amor ao próximo, de justiça (não fazer aos outros o que não queremos que nos façam) e de não-violência, muitos cristãos são pacifistas.
[iv] Paixão - Sentimento que impede de se raciocinar com a lógica.
[v] Eloqüência - Capacidade de falar e exprimir-se com facilidade; capacidade de persuadir através da palavra; arte do bem falar.
[vi] Senda - Caminho.
Um comentário:
Religião já é por si só um assunto complicado de se lidar em meio a diversidade de posicionamentos e opniões existentes por aí, misturado com política então...Pra muitos é considerada uma combinação impossível, complicada ou no mínimo não viável.
Não vejo porque o cristão autêntico não poderia se envolver e tomar partido em se tratando de política. Concordo com as colocações sábias do meu mestre mas ao mesmo tempo admito que algumas perguntas pairam sobre mim quanto a esse assunto.
Um ponto parece estar bem definido, o cristão pode sim tomar partido político sem por isso deixar de seguir o caminho alvo do nosso Senhor.
Mas até como proceder? Como cristão que (se autêntico) apoia e trabalha em prol de um candidato ou partido por ver ali defendidos os preceitos da vida cristã?
Podemos passar disso? Seria certo "trazer" Deus pra briga? Ou melhor, Deus toma partido? Deus teria um preferido?
O que pensar quando vemos que uma pessoa que acaba ganhando anda longe de ser como a que perdeu? Deus teria um propósito? Podemos pensar em bençãos e castigos?
Nessas eleições escutei uma mulher de fé dizer que Deus não iria pertir que um determinado candidato ganhasse, que Ele iria lhes dar a vitória. Escutei outra de outra cidade falando com a certeza, a paz e aquele brilho de esperança nos olhos que só vemos nos cristãos autênticos, que o candidato dela ia ganhar porque ele era um homem de Deus, um anjo do Senhor que só queria o bem da população.
Nenhum dos dois ganhou.
Em meio a todos esses questionamentos, de uma coisa eu sei, daqui a 4 anos minhas esperanças de ver bons homens, homens tementes a Deus, na administração de nossas cidades,se renovarão. Todos poderão me ver erguendo suas bandeiras, não pensando em vantagem própria até porque eu delas não necessito. Estarei torcedo e trabalhando por eles porque cristão autêntico não fica em cima do muro, não existe o mais ou menos bom, ou se é bom ou se é mal, ou se estar de um lado ou de outro.
Não preciso dizer de que lado estarei.
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